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08/02/2009 21:53
Dois patos de idade e o dia-a-dia na rua
Acordei na segunda, dia 19, sem perceber que completava 22 anos. Como de costume, nas últimas semanas, o hábito é levantar às 07:00, tomar o café, colocar o fone no ouvido e partir para fechar duas matérias. A primeira era sobre o projeto Recreio nas Férias, no Ginásio Raul Ferraz. Crianças da periferia de Conquista se divertindo em uma gincana e brincando e diversas atividades recreativas durante uma semana. No meio da manhã, Ih, hoje é meu aniversário, lembrei. Às 11:00, Augusto me liga. Depois, pai, avó, tia, mãe. Pela tarde, tio, tia avó. Depois da última ligação fui ganhar um presente no Detran. Não, está faltando o comprovante de residência, disse a mulher, após ouvir a minha solicitação de segunda via. Voltei para casa, depois de pegar a segunda via do cartão de passes e, pela noite, ganhei os parabéns de Brunão. Oh, rapaz, venha cá, disse o Urso Polar, abrindo os braços.
Pra onde?, perguntou Renato Simpatia, como de costume, na manhã da terça, 20. Pro Ceasa, disse eu. E lá fomos para uma matéria sobre ervas milagrosas. No desespero por pautas nas férias, qualquer história é válida. Falei com um senhor de Rio de Contas que há 17 anos têm uma barraca na feira e vende vários tipos de ervas e raízes. Durante a conversa ele me apresentou uma espécie de esponja e falou, tira um pedacinho e coloca na língua. Depois de alguns segundos um amargo extremo dominou toda a boca. Um monte de mulher procura essa erva. Ela serve pra abortar, disse ele. Conversamos também sobre uma que acaba com a impotência e fiquei de levar algumas para dar uma conferida.
No começo da tarde, Léo tinha chegado de viagem e me deu os parabéns. Junto com Brunão, conversamos durante um tempo até o cochilo esperado. À noite fomos à pizzaria. Entre assuntos diversos e risos frouxos, dividimos uma família de quatro sabores. Na sequência, fomos ao América tomar qualquer cerveja e encerrar o dia conversando sobre empregos e futuro.
Na manhã do dia 21, me despedi de Léo no ponto, ouvi a pergunta de Renato Simpatia e, junto com Kalled, fiz uma matéria sobre sucos exóticos. Na tarde do dia seguinte, finalmente, solicitei a segunda via da carteira de habilitação. Depois de assinar alguns documentos, as mulheres dispostas ao trabalho do Detran me informaram que teria de tirar novas fotos. Na saleta, questionei aos supostos cidadãos, impressionante como as coisas funcionam nesse nosso Brasil, não é?. Como resposta silêncio e caras de quem é esse estressadinho para falar do nosso ágil trabalho?. Na tarde da sexta, dia 22, conversava com o presidente da CDL e com um professor sobre as demissões no comércio e na indústria da cidade, respectivamente.
Descanso no sábado? Logo pela manhã já estava no Lomantão, para mostrar a preparação do time para o jogo do dia seguinte. Oi, você eu não conheço, disse Renata Menezes da Sudoeste, que estava lá pelos mesmos motivos. Em seguida fomos para a Lagoa das Bateias conversar com crianças, coordenadores e voluntários que tiravam lixos de toda a margem da lagoa. No fim da tarde, corri até a faculdade.
No domingo, 25, pela tarde, Vitória e Vitória da Conquista jogaram no Lomantão. Chegamos às 15:00 e o estádio estava vazio. A ameaça de chuva espantou a torcida. As equipes foram chegando e as cabines foram se enchendo. A Record transmitiria ao vivo. Sem ter idéia de como fazer o negócio fui para a cabine da Rádio Cidade. Dividi um fone com um funcionário e fiquei com um olho no campo e outro no cronômetro. Cada lance importante era uma linha no caderninho. Entra o Conquista, torcida grita, dançarinas rebolam. Entra o Vitória e vaias ecoam. Fim de jogo, 2 a 1 pro Vitória. As equipes descem, os técnicos falam com o pessoal do rádio e depois com as tevês. Depois dos treinadores, os jogadores falaram aquela fala típica de jogador. Na saída, torcedores revoltados no portão chamavam os jogadores pra briga. Assim foi a cobertura do primeiro jogo. No fim da noite, entre goles de café, escrevia os offs das três matérias do fim-de-semana.
Durante a semana fechei algumas pautas e percebi que a rotina estava insustentável. Fiquei alguns dias pensando uma forma de mudá-la para, finalmente, ter tempo para tentar estudar alguma coisa. Na terça, 27, coloquei a mudança em prática, dormindo cedo e acordando no dia seguinte, às cinco da manhã. O engraçado é que nesse horário nem os pássaros começaram a cantar. Eles começam cinco e quinze, mais ou menos. Depois de acordar, na quarta, iniciei a nova rotina, indo para a Aabb de bicicleta e voltando para casa uma hora depois. 07:40 rumo para o estágio. Chego em casa para fazer o almoço e... Fico com a tarde livre para estudar. Cabeça de pensar para pensar, diria um antigo e exímio professor de química, chamado Armando.
Na manhã da quinta-feira, 29, fui fazer uma matéria sobre os uniformes escolares, aproveitando a volta das aulas. Primeiro, fomos à escola Adélia Teixeira, conversar com um diretor, uma mãe e um aluno. Depois fomos em uma indústria que fabrica a maioria dos uniformes (não só escolares) da cidade. Em seguida, para uma matéria sobre infecção urinária, fomos a uma academia, a Fama By Washington, onde conversamos com o próprio Washington, que lembra muito o ex-lutador de boxe, Reginaldo Holyfield, e com uma aluna da academia. Na sequêcia, falamos com um clínico geral. No apartamento do médico, várias crianças estavam no primeiro andar, comentando olha, vai ter uma entrevista, olha, é um repórter de tevê e riam. Na saída, Kalled as filmou e acenamos. Espevitadas, elas deram tchau.
Na manhã do dia seguinte fui aos laboratórios da Universidade para uma matéria sobre quem estuda e trabalha em projetos de pesquisa durante as férias. Alunos e professores foram ouvidos. O projeto mostrado na matéria, o Genplanta, conta com estudantes que estudam até dentro de estufas, debaixo do sol do meio-dia. Pela tarde, cobri o trabalho da colega Cássia, na produção, ganhando mais um dia de folga. No sábado, 31, pela manhã, corri com o colega editor de imagens, Renato Correia. Gente-fina, morou no Rio durante dois anos e está sempre disposto ao trabalho, dando bons conselhos e levando um bom papo.
Segunda-feira? Mais correria. 02 de fevereiro, o Rio Vermelho florido, o mar sujo e eu produzindo no planalto da conquista. Pela manhã, ligando para as fontes, fui avisado que ficaria pela tarde na rua. A primeira missão era um stand-up e começou com um pequeno deslize bem-humorado. ... E para isso nós vamos conversar com o professor... que não está com o nome na pauta, Alexandre Pires, disse o professor rindo. Professor Alexandre Pires, explica pra gente.... E assim foi a entrevista com o professor que está abrindo 120 vagas para pessoas que precisam colocar algum tipo de aparelho, como parte das atividades da pós-graduação em ortodontia que ele coordena. Em seguida, fizemos uma matéria sobre a inadimplência no comércio da cidade. Falamos com um coordenador da CDL, comerciantes e com o povo na rua. Depois fomos conversar com o time juniores do Vitória da Conquista, que enfrentaria o Feirense dali a dois dias.
Na terça, fechando com as fontes, fui informado que novamente ficaria da rua à tarde. Almocei apressado em casa e, ao voltar para o trabalho, conheci Anselmo, o novo repórter. Desejei boa sorte e fiquei o resto da semana na produção. Ontem fui ao show do Cascadura no Centro de Cultura. Brunão estava com Sara por lá e, diante da nossa experiência em fins de 2005 no mesmo lugar e no mesmo entretenimento, perguntei E aí, o show de comédia já começou?. Rapaz, já, disse ele. A banda de pop-rock do organizador do evento estava tocando, em seguida veio uma meio Nightwish mambembe, que chegou a tocar Take on Me do A-há, versão metal-mal-equalizado, e depois uma típica banda para agradar multidões, com um coroa serelepe no vocal, tocou uma série de covers consagrados do rock and roll. Cascadura entrou em cena e deu o recado da maneira profissional como lhes é habitual. Voltei com Brunão e sua primeira-dama que pousou por aqui por não ter mais ônibus disponíveis. Agora há pouco bati o pique até a faculdade. Amanhã? Rua.
enviada por Keyser Soze
18/01/2009 15:04
Surpreendentemente, com o olhar de hoje e pesar das intempéries da véspera de Natal, não foi o pior Réveillon. Mesmo porque, colocar em qualificações simplistas assim não valem muito. Augusto chegou e fomos conversando e tomando cerveja quando, de repente, já era 2009. Em casa, trocando idéias, como não poderia deixar de ser, representando o ano que acabava. Iure chegou e continuamos, até perambularmos pela rua, procurando algo pela cidade que sabíamos que não encontraríamos. Às 02:00 já tinha pego no sono para não fazer nada no dia seguinte.
Na noite da sexta-feira, 02, fui ao Rio Vermelho. Nos primeiros minutos no bar, ouvi dois ou três petardos da vulgaridade soteropolitana. Você ouviu o que o pessoal dessa mesa estava falando?, perguntei. Não, disse Augusto. Ainda bem. Na Dinha o quadro era ainda mais turvo. Olhamos um para o outro e rimos. É, velho, vamos nessa, concordamos. Logo depois, conheci o Franz Café, lugar de atendimento incomum, situado no Itaigara. Cinco minutos depois do pedido, já estava com o café no bico. De lá Augusto teve uma tentativa frustrada de conseguir algum contato com seus amigos. Voltou lá para casa com algumas cervejas e conversamos, de modo exultante, sobre a cidade, o estado, políticas e planos até às 04:30 da madrugada.
No sábado, 03, fomos à praia. Lá encontramos Andréia, o alemão e as crianças. Dois babas, uma derrota e uma vitória. Na mesa, a tarde correu em segundos. Em casa, Seu Jorge preparou a tradicional gordura. Enquanto tomávamos um café na Video Hobby, pela noite, conversando em alto astral, um barulho seguido por um grito desesperado de socorro veio da porta de entrada da loja. Uma tentativa de assalto a carro. A noite ficou azeda e, depois de um instante, fomos embora. No dia seguinte, fomos à praia novamente, mas dessa vez meu irmão foi no lugar de Augusto. A tarde correu da mesma forma. Depois de um longo cochilo, arrumei tudo no início da noite e fui para a rodoviária, que parecia um pandemônio.
Volta
Cheguei às 07:00 horas com o pescoço doendo, com a identidade e com muitas tarefas burocráticas para enfrentar. Depois da providencial soneca, sem nenhum dinheiro, fui ao Magia e, de lá, para a Caixa, solicitar os novos cartões e pegar uma fila de quase duas horas para fazer um saque. Cheguei às 15:00 horas no trabalho e só pensava em uma coisa: achar a reportagem. Já ia levando as mídias com os jornais de Outubro e Setembro, quando sentei na mesa de edição e fui bisbilhotando até que, por um acaso dos céus, encontrei, editada e finalizada em uma pasta com o meu nome, a fatídica matéria que tinha pensado ter perdido para sempre no ônibus, no furto do Natal. Uma leveza tomou conta de todos os poros e tudo ficou azul de repente, em um grande sentimento de gratidão. Obrigado a quem quer que seja, pensava eu. Tirei todas as mídias da mochila e coloquei de volta no arquivo.
Depois do trabalho e da reunião da terça, 06, a tarde foi ocupada com o envio dos materiais para Fortaleza. Compra de mídias, gravação, ficha de inscrição, sedex e finalmente estava inscrito em mais uma prova de fogo. O que quase foi por água abaixo no Natal era despachado naquele momento. A sensação de dever cumprido tomava conta. Boa sorte, disse o despachante dos Correios. A partir da quarta-feira a TV ficou sem telefone e sem internet e eu me perguntava como o contribuinte baiano poderia ser tão vilipendiado. Na quinta, inaugurei a ciclovia, indo de bicicleta para a faculdade. Percebi que valia a pena na volta, ao som de Austin Lucas e mirando o pôr-do-sol. No Centro de Cultura a vernissage de um artista plástico de São Sebastião do Passé foi pauta para uma matéria. Gilson Rodrigues fotografou uma série de carrocerias de caminhão que, por meio de montagens no computador, acabavam simbolizando outras imagens.
Ainda não havia internet no trabalho na sexta, 09, e eu ainda pensava no subestimado contribuinte baiano. No Centro, pela tarde, comprei a lembrança para a vida de casado do colega de sala Bruno, taças para casa, agenda e carteira. Com dezenas de reais a menos, ainda sobrou alguns para entrar na Aabb de novo. A Orquestra Sinfônica da Bahia se apresentou no Centro de Cultura no sábado e eu tive a oportunidade de perceber que, ali, o contribuinte baiano não era desdenhado. Antes de correr no domingo, 11, dei um grande abraço em Brunão. Ele chegou e está conseguindo estudar duas horas por dia para o concurso do Banco do Nordeste.
Escalado para a reportagem, fiquei de braços cruzados na segunda, 12. O carro estava sem combustível. Bem, entraria em parafuso se pensasse no contribuinte. Os fatos absurdos se sucedem em escala impensável. As mentalidades mais criativas ficam desnorteadas ao imaginar a capacidade multiplicativa dos absurdos cotidianos em nessas terras. Qual o meu compromisso com essa realidade? No momento, microscópios são usados para se obter essa resposta.
Na manhã da terça as coisas funcionaram relativamente. Depois de uma breve matéria sobre o último dia do vestibular, fomos conferir um crime brutal. Uma mulher foi encontrada com uma pancada na cabeça e o corpo parcialmente carbonizado na beira da estrada, próximo ao anel viário. A população local estava indo embora. Ih, já tiraram o corpo, pensei. A marca estava no acostamento. Não dou entrevista. O que eu posso fazer é lhe dar são as informações, disse o perito. Saímos de lá para uma matéria sobre o aumento das mensalidades nas escolas. Entre os abismos do dia-a-dia vou me equilibrando. Uma ex-colega de sala é a assessora e, na ocasião, cumpriu seu papel de soldado da empresa contra qualquer intenção desconhecida. O clima de tensão e o cheiro de receio era sentido de longe.
E lá me fazia presente no Detran, na quinta, 15. Depois de receber a carteira provisória pensava que nunca mais enfrentaria aquele lugar. A ladeira próxima ao Samur parecia ainda mais íngreme e sol mais forte. Traga a cópia do BO e do RG, disse a funcionária, com uma voz de quem estava disposta a trabalhar. Ainda deu tempo para fazer o recadastramento dos passes e revelar a 3x4. A carteira nova começou a ganhar corpo. Na sexta-feira, 16, três pessoas sustentavam a TV. Eu, uma repórter e uma estagiária voluntária. Escalado para uma matéria sobre planos de saúde durante a tarde, pensava na precariedade da pauta à precariedade de toda a estrutura do trabalho. Ontem, sem nenhum compromisso, pensava nas possibilidades do futuro e no vácuo em que estou nesse grande entreato. Não sei se posso chamar de sorte, mas é bom dividir esse mesmo momento com o grande amigo de infância. Estamos passando pelo mesmo momento, ao olhar para os lados e não ver absolutamente nada.
enviada por Keyser Soze
31/12/2008 20:27
No dia 31 de Novembro, último do mês de novembro, tentei li malmente a apostila para a derradeira apresentação da disciplina Oficina de Planejamento e Gestão em Comunicação, nome complicado que serve para empolar o que poderia ser claramente definido como vamos brincar de sermos sérios fazendo uma caricatura de Assessoria de Comunicação. No dia seguinte, entrei na sala disposto a suportar até o fim. O professor da disciplina havia anotado o meu nome, como fazem no primário, e, dessa vez estava decidido a mostrar que sou um estudante exemplar. Consegui, não levantei da cadeira nem para esticar os tendões. Foi difícil ver todos forjando em pé a seriedade que não tinham sentados, mas resisti. Era a última aula do ano, tinha de estar ali, era uma questão de honra. Como resultado, meu grupo ficou em terceiro lugar na apresentação do projeto de Assessoria, tirando 8,5. Com isso, eu passei raspando na disciplina tirando 7,0 e fiz igual ao Seu Boneco, fui pra galera. Pessoal, foi um prazer estar com vocês esse tempo, fazendo trabalhos juntos, muito obrigado, disse eu, saindo para almoçar a comida destemperada do RU.
Na terça, 02, depois do trabalho e do almoço fiquei sabendo que tinha outra difícil missão pela frente. Essa, pelo menos, era digna de confiança. Cheguei na aula de inglês e percebi que deveria escrever dez writings e mais duas atividades orais. Um em três dias e os outros o mais breve possível. Quarta e quinta, pelo que lembro, negociei a melhor maneira para a viagem do dia 10 com o pessoal de Brasília. Na sexta, 05, entreguei o primeiro e fiz a última prova do ano, logo, a última prova desse longo período de faculdade. Tive a sensação de ter feito bem. Ainda na sexta o Correio entregou o mp4 da Philips que promete durar um pouco mais. Sábado e domingo compus 4 writings com muito pouca vontade. Na manhã da segunda, liguei o gravador e gravei as atividades devidas. Depois do trabalho, deixei os arquivos no PC no Caale.
Em casa, coloquei o necessário na mala, dei um abraço nos caras e parti para a rodoviária. Brunão, eu não saio de lá sem dar um beijo na testa do Daniel Dantas, disse antes de fechar a porta. Antes de entrar no ônibus um quarentão gordinho me perguntou se eu estava indo para Salvador. Se tiver como, você poderia entregar esse envelope no Crea?, perguntou. Ô amigo, não vou poder, estou indo para Brasília. Vou chegar em Salvador e vou direto para o aeroporto. Não tem mais alguém que possa levar?, disse eu. Pode deixar, obrigado, disse ele, como quem não acreditava no que eu estava dizendo. Para minha felicidade, eu disse a verdade.
Ida e um pouco mais
Na poltrona ao lado um deficiente físico e visual me pediu para que o avisasse quando chegássemos em Feira de Santana. Tudo bem, disse eu, antes de ajudá-lo a colocar o cinto de segurança. Que cidade é essa?, Jequié. Onde é aqui?, Milagres. Finalmente, chegou em Feira, ele não perguntou onde era e nos despedimos.
Era manhã de terça-feira, dia 09. Meu pai guiou o carro até o supermercado para comprar pão. Quando ele voltou, me encontrou no banco do motorista. Vamos, disse ele, sem questionar. Saí do estacionamento e, no primeiro sinal, o carro morreu. Ih, caramba, disse ele. Normal, normal, disse eu. Segui pela av. Paulo VI até o sinal do mercadinho apontar a luz amarela. Vou parar, cogitei. Não. Acelera, acelera, disse ele. Acelerei e na minha frente surgiu o ônibus vermelho da BT3. C... !, Vira!. Mudei de faixa e segui. Aos trancos e barrancos, parei o carro na garagem de primeira, mas quase arrancando o retrovisor de outro. Assim foi a primeira vez que guiei um carro em Salvador.
Em casa, os novos amigos do meu irmão roncavam no quarto. Às 10:30 estava na Base. Conheci o pai do Costa Pinto, um senhor mais simpático que o filho. A idade vai amaciando o sujeito, dependendo do caso. Finalmente, depois de 4 anos e 9 meses, tirei a parte da arcada inferior e fiquei definitivamente livre do aparelho. Vai em paz, disse, como sempre, o Capitão. Dessa vez, de fato e de direito, fui. Em casa, Augusto chegou para o almoço. Trocamos breve idéia sobre o que poderá ser nosso Carnaval e ao fim chamei todos para o quarto e fiz o que havia previsto. Mostrei a matéria, observei as reações e, ao final, dei a notícia. Eu tenho uma notícia boa e uma ruim, comecei, previsível. A ruim é que não vou poder tomar uma com Augusto e também não vou poder ficar muito tempo aqui... Porque a boa é que ganhei o... ...E o vôo sai daqui a pouco, às 15:10, disse. A satisfação com a surpresa foi geral e a sensação de dever cumprido foi total. Tomamos um café com pão-de-queijo no aeroporto e embarquei para a Capital Federal, depois de 3 anos e 9 meses.
Em Brasília, 19 horas.
Provavelmente essa tenha sido a ocasião em que ficou mais nítido que os esforços são recompensados. Pela janela do avião vi Salvador indo embora e um filme chegando. Um filme que mostrava todos os acontecimentos dos últimos anos de modo a fazer com que tudo se encaixasse, tudo fizesse sentido. Olhava com cara de bobo para as nuvens e por vezes vinha o pensamento, puta merda, olha o que está acontecendo comigo. Peguei a câmera, fiz um gesto para uma mulher que sentava na outra fileira e ela registrou esse momento.
Cheguei no planalto central às 19:00 e o dia estava claro. Depois de pegar um ônibus para entrar no aeroporto, fui até a floricultura. Um homem de meia idade segurava o cartaz, me identifiquei e sentei no banco, ao lado de Jacqueline, que ficou em segundo lugar na região centro-oeste. Logo depois se juntou a nós Taiana, segundo lugar no prêmio das monografias. Entramos na van e fomos para o hotel, cujo quarto era um apartamento do tamanho deste que divido com dois camaradas. Fomos ao Pátio Brasil comer um sanduíche e compartilhar as impressões. Na volta, depois de 8 horas de viagem de ônibus madrugada a dentro e duas de avião tarde a fora, caí num sono profundo.
Às 07:30 estava de pé. A quarto tinha uma vista para uma construção de um hotel ainda maior. Reconheci o lugar quando vi um parque de diversões próximo. Era o Parque da Cidade, onde fazia exercícios durante as tardes de abril de 2005. Bom dia, onde é o café-da-manhã?, perguntei a um atendente no térreo. Cheguei no primeiro andar e, ao ver as três mesas de pratos e perceber o silêncio de todos, verifiquei a classe que ali se hospeda. Mais tarde ficaria sabendo que o Meliá Trip não era o melhor, mas sim, seu irmão, o Meliá Brasil, onde se hospedam governadores e similares e onde foi realizado o evento. Para mim, isso só dava mais idéia sobre a dinâmica do poder.
No Churchill Lounge Bar, uma foto de sir Winston tomava uma parede. Mais mesas e mais canapés nunca antes vistos. Esperando o início da cerimônia, conheci Marcella e Nathaly, primeiras colocadas na região centro-oeste. Fizeram uma reportagem sobre o trabalho escravo nas lavouras de cana-de-açúcar do Mato Grosso do Sul. A melhor reportagem, na minha opinião. Meu tio chegou cinco minutos antes de anunciarem o prêmio. O diretor da escola falou e deu a entender que haverá uma nova edição. Meus olhos brilharam. Chamaram um por um. Parabéns, colega de TV, disse o diretor da Record ao me entregar a pasta. No brunch, conversamos mais a vontade sobre jornalismo, Carnaval e o que coubesse. Meu tio me indicou para a equipe da Band e fui, pela segunda vez, a sonora de uma matéria. Eu saio do trabalho às 17:00, te pego e a gente vai dar umas voltas. Eu vou dar um presente, disse meu tio. Não sabia que o prêmio era dobrado, pensei.
Após o convescote, parabenizei os organizadores e saí com as mato-grossenses flanando pela Esplanada. Tirando fotos do lugares que apareciam pela frente, passamos pela Catedral, pelo Museu, chegamos aos STF, onde ocorria a votação da demarcação da reserva Raposa do Sol. Não pudemos entrar, pois não estávamos com trajes apropriados. Em se tratando do Brasil e, mais, do Brasil de Gilmar Mendes, era absolutamente normal que não só isso acontecesse, como também, boa parte dos índios ficasse do lado de fora.
Do outro lado, no Palácio do Planalto, os seguranças eram mais nobres, sendo menos nobres. Mesmo assim, chegamos apenas ao térreo. Nosso amigo está aí?, perguntei. Tá, o PR, disse o segurança se referindo ao Presidente da República em tratamento interno, mas acho que vocês não vão poder fazer a visita, porque está tendo uma solenidade.... Deu-se o jeito e perambulamos um pouco pelo térreo.
No Senado, Mão-Branca falava sobre o Padre Vieira, todos riam, inclusive aquele que se dirigia a tribuna no exato momento que lá cheguei, César Borges. Os dois trocaram carícias verbais e eu me retirei. Na Câmara, cerca de 450 deputados lotavam a sessão para definir algo em relação ao TCU e outros pormenores. Diversos da Bahia, de Edgar Mão-Branca ao candidato a prefeito derrotado, Walter Pinheiro. Assim que cheguei, quem estava conversando ao pé-do-ouvido com o presidente da casa, Arlindo Chinaglia? ACM Neto. Os petistas de São Paulo, também marcavam presença. Aquela conversa ali é o segredo do sucesso, disse eu ao constatar José Eduardo Cardozo ao pé-do-ouvido do José Genoíno. Mesmo na Câmara (ou principalmente na Câmara), as conversas profundas se dão a beira do cangote. Como num baile de forró. Mas lá, os empenhos são bem outros, sabe-se bem.
Na saída da Câmara, um sujeito pede para o Chico Alencar subir. O sujeito é o Prefeito de Santa Rosa, cidade de seus vinte mil habitantes, no interior de São Paulo. Ih, rapaz, você trabalha aqui, né? Sabe quem é todo mundo, disse o espirituoso prefeito, adequado ao ambiente propício a pessoas espirituosas. Ele estava lá para receber um prêmio de gestor público por conta do trabalho relativo à merenda escolar e ao Bolsa Família. Disse que também estava lá por conta de uma premiação e, ao ficar sabendo do que se tratava, ele disparou. Ah, jornalista? É por isso que sabe quem é quem. Ele estava voltando para Santa Rosa nos minutos seguintes. Vai como?, perguntei. Vou de Passamedo, disse, espirituoso. Eu também, disse rindo.
Nathaly, a mato-grossense companheira de fotos, já não estava a pleno vapor quando voltei. Pegamos o W3 Sul e íamos para o Pátio Brasil. No meio do caminho percebi que daria tempo para seguir pela avenida e visitar a Tia Inês. Não pensei duas vezes. Bom, eu vou ficar. Foi um prazer conhecer vocês, disse a elas. Dezenas de roqueiros estavam sentados na quadra 6, onde a Banca do Gaúcho continua firme e forte. Entrei na rua e logo vi que a casa continuava com aquele verde bebê de anos atrás.
Toquei a campanhia. Quem é?, disse a tia. É surpresa. Depois que ela abriu, antes de reconhecer ainda fez a pergunta, Ué, quem é?. Comi o tão lembrado queijo minas. Contei os motivos para estar ali, até a Tia Glorinha descer. Conversamos sobre muitas coisas em pouco tempo. Quando o assunto era a nossa memória, perguntei por onde andava a Marizane, empregada de anos atrás. Por falar em memória, esqueci o que a tia respondeu. Às 17:30 tio Henrique chegou e, na saída, recebi de presente um queijo minas.
Fomos para o Conjunto Nacional. Depois de tirar medidas, avaliar cores e tamanhos, saí de lá com terno, calça, camisas, gravatas... Em suma, com a senha mínima para entrar no STF. Deixamos os trajes sob os cuidados do alfaiate e fomos ao Bearfass, no Lago Sul. Todos que estavam na mesa, à minha exceção, eram da área de saúde, mas a conversa era comum. Comigo, um fisioterapeuta de Brasília, um médico de Volta Redonda e outro médico de Teresina, conversavam sobre mulheres. Quando estávamos na segunda torre de chop, meu tio abandonou a diplomacia com sua futura orientadora do doutorado e me chamou para pegar os trajes e ir comer qualquer coisa. Passamos um tempo no engarrafamento do McDonalds, até sair pararmos no estacionamento. De minha parte, coube uma batata e um suco. Nos despedimos no hotel. Um dia eu vou retribuir isso tudo, disse eu ao cabo. No quarto, ainda tentava entender o que havia acontecido no dia.
Cedo, deixei as bagagens no térreo e fui tomar o café do hotel que, em bom português, poderia ser entendido como banquete. Me senti o próprio Kevin do Esqueceram de Mim 2, na cena em que vai para a piscina, observando os outros e tentando se reconhecer naquele lugar. Às 08:40, o pernambucano Roberto já esperava para fazer o traslado. Conversamos sobre a cidade, as oportunidades e a família. O aeroporto estava lotado e o vôo estava marcado para as 10:00.
No avião minúsculo da Passamedo, os fazendeiros de Brasília que tem terras em Barreiras se acomodaram. A aeromoça começou a fala de aeromoça. São servidos amendoizinhos e um copinho de suco. O avião desce no também minúsculo aeroporto de Barreiras, saem os fazendeiros de Brasília e entram a elite barreirense e os fazendeiros de Salvador que tem terra em Barreiras. A aeromoça começa a mesma fala. São servidos biscoitinhos e um copinho de suco. O avião desce em Salvador, sai a elite barreirense e entra a conquistense e fazendeiros de Salvador que tem terras no sudoeste ou o que o valha. Fala da aeromoça e são servidos um sanduichinho e um copinho de suco. Às 14:00 o avião desce em Conquista, onde outra leva de elite esperava ansiosamente para voar. Eu, ansiosamente, procurava um táxi.
No caminho para casa, o taxista me explicou toda a logística de funcionamento das duas linhas que servem Conquista. Uma é da Trip, que faz o pêndulo Salvador Conquista Belo Horizonte. Outra é a Passaredo, que faz São Paulo Brasília Barreiras Salvador Conquista. Explicou os interesses da Tam na cidade, explicou o que deveria ser feito para melhorar a estrutura do aeroporto e eu expliquei para ele que, com tanto conhecimento sobre o aeroporto, ele poderia ser o administrador. Deixei as bagagens em casa e corri para o trabalho, pensando que estava atrasado.
A visão panorâmica do abismo
Por conta do horário de verão em Brasília, cheguei, na verdade, meia hora adiantado para ficar de frente para o computador que, sem maiores equívocos, pode ser considerado uma calculadora gigante. Em menos de trinta minutos, a falta de energia deixou tudo ficou às escuras por três vezes seguidas. Observei aquela situação tragicômica e não evitei. Pessoal, eu quero trabalhar, mas vocês estão vendo que não tem como. Até mais, disse ao ir embora. No trajeto para casa, ri, lembrando onde acordei e de onde acabara de sair. Senti o abismo na pele, nos alvéolos pulmonares, nos átrios e no centro do córtex frontal. A fossa que separa tudo de maneira evidente no Brasil. Sereno e respirando fundo, ri pela vitória e pela derrota que o mesmo momento representava. Momento único e inacreditável.
Sexta, 12, depois do trabalho houve a minha última aula de inglês na faculdade. Em casa vi um email de um professor me parabenizando pelo feito do dia anterior. Ele soube pelo Diário Oficial. Ih, bem que eu tentei ficar na minha, pensei. Sábado fui à praça Barão do Rio Branco, onde Fagner demorou horas para tocar com um som baixo, mal equalizado e para uma platéia insustentavelmente lotada. Léo estava com os amigos do curso e um deles, Pedro, cogitava a interessante idéia de ir embora. Fagner tocou duas músicas e fomos. Domingo, peguei a reta e corri na nova ciclovia.
Durante a semana o trabalho seria na rua. A segunda, 15, começou com uns stand-ups furados, um fala povo na central de passes sobre o bloqueio do cartão de passes durante as férias, medida que está embasada claramente na idéia de que o estudante durante as férias deixa de ser estudante. Onde está o movimento estudantil nessa hora?, perguntei aos meus botões, perplexo. Na praia, tomando suco de uva gumy, responderam de pronto. Na seqüência, recebemos uma ligação do sempre atento Fábio, que nos indicou uma matéria que envolvia greve e motim no Nilton Gonçalves. Lá, pegamos a versão do sindicalista e do diretor. Infelizmente não ouvimos os presos.
No fim da tarde fui para o Caale pensando na má notícia que receberia pela tarde. Após o trabalho fui para o Caale preparado, afinal, deixei de fazer quatro trabalhos escritos que valiam dois pontos no total. A professora Joceli fez as contas e, no final, 6,978... Professora, a senhora não vai fazer essa crueldade, disse eu, temeroso. A prova final seria na segunda-feira, mas ela me aproximou e eu tirei uma grande preocupação das costas. Voltei ao Centro para comprar passes e algo mais no Ceasa.
Na terça, uma matéria sobre o aumento dos divórcios pediu a entrevista com uma socióloga e um juiz que trabalha no Fórum. Em seguida, fomos para a Polícia Rodoviária e para o Detran, em uma matéria sobre a lei seca no fim do ano. Pela tarde, em casa, dei seqüência no anteprojeto.
Quarta-feira, 17, sem tomar café entrei no carro e fomos para Cândido Sales, em uma matéria que tomou a manhã inteira. A ponte sobre o rio pardo estava com o tráfego em meia pista por conta de uma reforma. O estado de conservação da ponte fazia ela balançar quando os caminhões passavam. Isso aqui é uma palhaçada, diziam os motoristas. Isso aqui tá bom demais, dizia os vendedores de água e refrigerante na beira da estrada. Isso aqui é o Brasil, pensava eu. Na volta, paramos novamente na Polícia Rodoviária para saber sobre as recomendações ao motorista que vai pegar a estrada no fim do ano. Paciência, disse o inspetor Assis, categórico. No começo da tarde, tentei explicar para Anaelson o objetivo do trabalho final e soube que tinha até a segunda para terminar.
Na quinta, fui no Centro no começo da tarde. Troquei as passagens e comprei mídias. Cheguei no trabalho e fiquei arrumando os últimos ponteiros para a papelada para a próxima meta, mal sabendo o que ocorreria. Na sexta, 19, fizemos imagens do presídio, onde houve novo princípio de motim. Na seqüência, a cerimônia de formatura dos 185 policiais militares. Entrevistei o prefeito, o comandante do 9° Batalhão e quatro soldados emocionados. Aliás, a emoção dos soldados me emocionou. Via no rosto deles o meu rosto quando conquistei alguns objetivos esse ano. A felicidade como conseqüência de um grande esforço. Ao mesmo tempo, pensava em um novo abismo, aqui, autoridades e essa alegria. Lá no presídio, um motim. Ainda houve tempo para fazer uma matéria sobre uma feira de saúde, um stand-up na Coelba e outro na PPG. Sem me dar por vencido, fui à casa do professor Zé, onde ele assinou os papéis necessários. Tirei uma breve soneca, corri até a faculdade, bati com a cara na porta da academia que estava fechada e, feliz da vida, voltei correndo.
Acordei sábado pela manhã a fim de trabalhar, mas bati com a cara na porta novamente. Me dediquei então aos trâmites do anteprojeto. Sábado e domingo fechei o anteprojeto. Não ficaram tão claros os objetos e a metodologia, mas dentro do que me foi disponível foi o máximo que pude conseguir. A partir da segunda, 22, a carga horária no trabalho era dobrada. Na terça fui para a rua fazer matéria sobre os hábitos do verão, os assaltos no centro da cidade na época de Natal e um programa de registro de nascimento do Hospital Esaú Matos. Em uma reunião, pela tarde, fiquei sabendo que entraria uma considerável bolada por conta das atividades no fim do ano. Arrumei as malas feliz. As notícias boas não cessavam, mas...
...Eram boas demais.
Na quarta-feira, 24, acordei e entrei na caminhonete do trabalho, com as laudas dos offs já preenchidas. Era só colar as sonoras e ir embora. A primeira matéria era sobre os presépio e já havia sido feita, mas estamos na terra da alegria. Em seguida, outra sobre compras de última hora e, por último, uma sobre um programa social no bairro Vila América. Almocei na rodoviária e peguei o ônibus 12:30. A mala estava cheia demais para caber no bagageiro de cima e no chão, junto aos meus pés. O lugar ideal que encontrei para seguir viagem foi entre as duas últimas poltronas e a parede do fundo do ônibus, no canto. Ao colocar a bagagem, vi uma quantia em dinheiro na porta do banheiro. Cerca de trinta reais. Peguei e esperei uma pessoa sair do banheiro. Oh amiga, você estava com algum dinheiro no bolso, perguntei eu. Ela colocou a mão nos bolsos com uma cara de espanto. Ai, meu Deus!, disse ela. Aqui, olha. Estava na porta do banheiro, disse entregando para ela que, não só me agradeceu inúmeras vezes, dando a entender que aquele dinheiro era algo muito importante, como me deu dois bombons. Que isso, é o espírito de Natal, concluí.
Já em casa, nove horas depois, abri a mala e não encontrei nem os sete dvds nem a fita dvcam. Foi aquela conhecida sensação em que parece que o chão some. O trabalho minucioso e dedicado de meses foi pelo ralo por conta de um bandido que não sabe nem porque existe e, antes disso, por conta de uma realidade que não foi feita para mim. Meu Natal acabou ali, bem como meu Ano-Novo. Fui dormir.
No dia seguinte, tentando entender o fato inacreditável que aconteceu, cogitei com meu pai as possibilidades de ação. Passei o dia inteiro atordoado, pensando no trabalho desenvolvido, na chance que haviam tirado das minhas mãos aos 45 do segundo tempo, na falta de ação que veria de todas as incompetentes autoridades se resolvesse agir, na função que os dvds teriam para a vida do bandido em comparação com a minha. Fui além, vi tudo aquilo como um sinal, um alerta clarividente para o ano que bate a porta. Essa é a realidade. Isso é o país e o estado. É assim que é tratado quem tem grandes planos e quem propõe-se a grandes feitos. Não poderia ser em vão algo desse tipo acontecer 1. comigo e com meus trabalhos; 2. depois de eu ter entregado o dinheiro para a mulher; 3. no dia 24 de dezembro. Fiquei pensando em tudo isso durante todo dia quando, tarde da noite, verifiquei que minha carteira também não estava na mala.
Na manhã do dia 26, eu e meu pai estávamos na delegacia que fica na própria rodoviária. Título de eleitor, carteira de identidade original velha e uma cópia da nova, um cartão de conta corrente, outro de conta poupança, cartão de meia-entrada em ônibus, carteira de habilitação provisória, passagem de volta e documentos diversos de menor importância. Tudo nas mãos de um sujeito que não tem nem a noção de que isso não tem a menor importância para ele ou para qualquer um. Bloqueei as contas às 09:10. Nenhuma movimentação foi feita. O mês de janeiro será destinado a tirar as segundas vias de todos os documentos.
Sexta-feira, Augusto chegou de Valente e fomos para o café da Vídeo-Hobby conversar. Na seqüência, aqui em casa, tomamos algumas cervejas e ele me contou com detalhes todos os trâmites e todas as suas estórias na gringolândia. Sábado, corri pela orla para tentar esquecer o mal ocorrido, o qual foi sendo digerido pela prostração do domingo e da segunda. Ontem, dei um abraço em Victória e fui tomar um café com o velho amigo e com Iure. Nós três compartilhamos nossas idéias e nossos planos. Somos três velhos, falei. Ou, sem muita pretensão, simplesmente estamos além, pensei.
O mês de Dezembro, como se vê, foi de extremos. Extremos inacreditáveis e imponderáveis. Seria o melhor fim de ano da minha vida, até então. Acabou sendo o pior. Ao mesmo tempo, o olhar já mira além. O ano acaba daqui a pouco menos de quatro horas. Em 2009 escreverei algo sobre ele. Adianto que foi bom em muitos aspectos e que o saldo geral foi positivo. Talvez um dos maiores aprendizados tenha sido a velha e batida idéia de fazer agora e não esperar. Se seguisse a risca, por exemplo, não perderia o que perdi nesse furto. 2009, entretanto, vêm com esse aprendizado incrustado. Assim, as perspectivas são claras, positivas e amplas.
enviada por Keyser Soze
30/11/2008 22:34
Quando a justiça é feita pelo esforço
Acordei no sábado, 15, disposto a resolver de vez a edição da matéria sobre o mercado moveleiro. No ponto, quase nenhum ônibus passava. Era dia da Proclamação da República, essa nossa nobre e respeitável República que deixa à solta Nahas, Dantas e seus asseclas em diversos ramos de atividade. Na impossibilidade de dar seqüência ao trabalho, fui correr pela tarde e pela noite fui fazer um ignóbil social no shopping.
As coisas foram acontecendo, amenas. No domingo, um jogo emocionante do Flamengo, na segunda uma reunião do trabalho interminável da Oficina de Planejamento e Gestão em Comunicação,depois uma leitura de uma ótima entrevista com Luiz Gonzaga Belluzzo na revista Fórum em que, entre lúcidas análises sobre essa panacéia financeira do mundo, ele criticava a personificação de acontecimentos históricos, dizendo que não foi Reagan quem produziu o neoliberalismo e sim o contrário.
Tenho protelado a entrega do pré-projeto do trabalho de conclusão do curso. É indescritível a falta de suporte que esse lastimável curso dá para a concepção do trabalho final. Não tenho ido para as aulas, justamente por ser algo desolador e por estar em uma grande expectativa para o fim, derradeiro e inestimável, das aulas nesse curso de Comunicação totalmente do-it-yourself. Aí vêm a lógica pergunta, se é do-it-yourself, para que aulas? É o que eu me pergunto há alguns anos.
Terça-feira, 18, depois de uma reunião em que me cobravam paixão no estágio, fiquei sabendo das provas e trabalhos marcados para a disciplina, essa sim empolga, de Língua Inglesa III. Todos na sala estão dispostos a aprender, se dedicam e se respeitam. Colocam as dificuldades e contribuem, numa construção coletiva de conhecimento. Quando penso na diferença entre isso e aquilo, respiro fundo e aliviado. Faltam poucos dias para o fim daquilo. Na sexta, 21, depois de uma reunião com toda a equipe, onde se apontaram culpados para um problema estrutural. Como podem achar um culpado e fincá-lo na cruz por conta de um problema de falta de mão-de-obra, um problema macro, de logística?, perguntava aos meus botões. Pela tarde, alegre na aula de letras, apresentei o disco da Adcional e lembrei de uma época conhecida, mas através uma língua desconhecida.
No dia seguinte, editei com o camarada Renato. Na saída tivemos uma conversa boa sobre os problemas da televisão. Os problemas não resolvíveis por causa do meio, do macro, da ausência crônica de planejamento, do humano. No domingo, 23, Léo viajou para o extremo sul, Brunão estava em Itabuna e eu fiz um social pelas ruas vazias e, depois, nada mais que um social por aqui. Segunda, 24, comprei pela internet pela manhã e paguei no Centro pela tarde tanto o mp4 da Philips (esperando que dessa vez não quebre) quanto o livro do Dan Gillmor. Quarta-feira, 26, Gracy tinha compromissos com um evento do seu grupo de pesquisa e tive comecei a dobrar a jornada no estágio. Fechei sete pautas em seis horas e bati o recorde. Na quinta, fiquei na reportagem pela manhã. Durante a sonora com a coordenadora da Semana de Farmácia, a bateria da câmera acabou. Rapidinho, falou Kalled. Ainda deu tempo para falar com uma funcionária da Anvisa.
Na noite da quinta, a notícia que eu ansiava há cinco meses. Tudo milimetricamente bolado, arquitetado, minuciosamente planejado para a notícia da noite da quinta-feira, dia 27 de novembro de 2008. Pois é, a Escola Superior do Ministério Público da União concedeu o prêmio para a minha matéria sobre o caos bancário de Vitória da Conquista. Levantei dessa cadeira em que estou sentado nesse momento. Léo, brother, me dê um abraço! Puta-que-pariu, velho!, gritei aturdido. Oxe, o que foi, rapaz?, perguntou ele sem entender. A partir daí, comemorei na varanda, como a maioria das pessoas comemoram quando se trata de um jogo de futebol. Nesse caso, para mim, o jogo é mais amplo. Porra, agora sim, parabéns, bicho, disse Léo, depois de entender bem o que houve.
Brunão chegou, ficou sabendo e conversamos durante horas, enquanto jogava água na privada que eu havia entupido. Puta merda, velho, parabéns, disse ele ao me abraçar. Amigos, grandes amigos. Me toquei na hora que poderia ter ganho também a segunda colocação com a outra reportagem feita na rodoviária sobre a gratuidade nas passagens para idosos, mas tudo bem. A justiça foi feita, o esforço foi reconhecido, a dedicação foi, finalmente, recompensada. Dormi e acordei leve, muito leve. Com o olhar além do horizonte, mais do que nunca.
Acordei cedo na sexta-feira, 28, para a reportagem novamente. Dessa vez, no Lomantão, sobre um convênio entre a FTC o time do Vitória da Conquista. Pela primeira vez, entrevistei um técnico e um jogador de futebol e foi exatamente como é. Ferreira e Léo Macaé seguiram direitinho o script, mesmo sem eu saber qual era. Depois, uma passagem sobre a promissora matéria a respeito das cooperativas e um interminável Simpósio sobre reflorestamento. Ligaram e disseram que tem que esperar o Reitor, disse Kalled. 11:30 chega o Reitor e dá o ponto final da matéria. Liguei para o pessoal do prêmio em Brasília para avaliar a possibilidade de uma menção honrosa para a outra matéria. Aos poucos estou transferindo essa ambição para outras metas, para a consciência ficar tranqüila.
Ontem pela manhã chuvosa houve a última reunião em grupo para um trabalho da faculdade. Foi na casa da colega Flávia e foi um encontro produtivo. Finalizamos o trabalho que, por sinal, apresentaremos amanhã pela manhã. Almocei no Viamar, depois de muito tempo. De lá para a TV, onde não aconteceu nada de produtivo. Mas o que importa é que os próximos dias prometem ser muito intensos.
enviada por Keyser Soze
14/11/2008 19:47
Colocar quase um mês no papel não é uma tarefa cômoda. Mas é uma tarefa reconfortante, por exemplo, saber que minha memória pode contar com uma importante extensão. Por vezes, aqui no sudoeste da Bahia, em conversas com Brunão, colega de morada, nos desentendemos: Mas aquele dia em que aconteceu isso foi no final de novembro de 2006, Não, rapaz, foi em dezembro, eu tenho certeza. Eis que me saio, bom, vou consultar meus arquivos. E está aqui, disposto milimetricamente, com a exatidão de uma régua, como uma lupa voltada para o passado, o exato dia de tal acontecimento. Retorno ao camarada e digo que ele estava ou certo ou errado e despejo mais e mais informações. Faltam textos mais pensados e mais bem cuidados nesse espaço, eu confesso. Mas a correria do dia-a-dia é uma guerra Camboja x Laos, diria Black Alien. E essa guerra não permite que nos voltemos para dentro de nós mesmos, de maneira calma, silenciosa, como deve ser. Eis a guerra:
Sábado, 18 de outubro, acordei cedo e pronto para segurar o mundo na palma da mão e fui para a TV com o objetivo de editar a reportagem Operação 15 Minutos. Dei de cara com a porta e a grade azul trancadas. Para colocar o mundo na palma da mão, primeiro tenho que dar um tapa na Bahia, pensei, rindo de mim mesmo. Depois do almoço em casa, voltei para a TV pela tarde. Alex, estava na edição. Alex, preciso terminar a edição dessa matéria, será que a gente consegue terminar até 16:00?, Vamos tentar. Percebi ali que contava com alguém disposto e agradeci aos céus por isso. Gravamos e cortamos offs, cortamos sonoras, colamos imagens por imagem e às 18:00 terminamos o bruto, só faltando os caracteres. Velho, brigadão, disse para ele. É... Esse é gente boa, pensei, lembrando das pessoas que me cercam no cotidiano do estágio e constatando, esfuziantemente, que o material que imaginei por dois meses a fio estava minhas mãos, finalmente.
Chamei o táxi logo que subi no ônibus. Foi o tempo de entrar em casa, chamar Léo, pegar o ingresso e sair para a Chopada de Medicina, mais uma celebração ao nada e ao hedonismo, ao mesmo tempo. Lembrei do mantra, no mangue, só nos cabe abraçar o siri. Encontrei Italo, da Aabb e fomos no ritmo de festa até o final. Muitas risadas e cenas impagáveis depois, o saldo foi a boca frouxa, os bagos doendo depois de uma queda com Italo, a camisa manchada de groselha e o tênis em estado grave. No domingo, corri para restabelecer o foco, mas lembrando dos momentos hilários.
Durante a semana visitava freqüentemente as ilhas para colocar os caracteres e terminar definitivamente a matéria. Consegui isso na quarta. Na quinta, 23, pela manhã, fui ao Centro despachar todo o material e comprar a passagem para Salvador. Comprei mídias, envelopes e tirei cópias dos documentos até enviar tudo por sedex. Com a peculiar sensação de dever cumprido, agradeci o atencioso senhor que tirava minhas dúvidas e despachava o material da melhor forma. Pela tarde fui para o estágio, achando tudo lindo.
No dia seguinte tentava achar espaço para, nos últimos momentos, conseguir editar a matéria sobre a divulgação da gratuidade para idosos em passagens interestaduais. Como não consegui, dei a última cartada, marcando uma edição em Salvador. Pela tarde, desenhei uma espécie de João Gordo no quadro, durante a apresentação no curso de Letras. Às 20:25 chegava ao ponto quando vi o Rodoviária passando. Peguei qualquer ônibus para o Centro e lá peguei um táxi para a rodoviária, aos 47 do segundo tempo. Durante o trajeto, várias pessoas com uma camisa verde andavam pelas ruas. Esse pessoal está indo pra onde, amigo?, perguntei ao taxista. Ah, isso aí é o Fest Gospel. Vai dar umas menininhas, disse ele. Ué, mas pode rolar alguma coisa em uma festa dessas?, Pode. Com algumas pode, disse ele. Durante a viagem, um geddelista argumentava em alto tom que João Henrique era o melhor para Salvador. Ele começava suas frases sempre com um não, veja bem..., independente do que falasse seu interlocutor. A certa altura, o cavalheiro colocava em viva-voz pelo seu celular o último debate. Se o militante não respeita o sono dos outros, será que o seu candidato respeita os direitos?, pensei eu, com o tampão nos ouvidos.
Ida
Logo quando cheguei em casa liguei para aquele que seria o responsável pela edição do material. 60 reais por hora mais o dinheiro da postagem por uma agência privada, já que segunda-feira seria feriado. Confirmei no telefone, mas abortei a missão no pensamento. Pela tarde fui para a barraca Marguerita. Disseram que é massa, disse Augusto. No caminho, a cidade era um carnaval eleitoral, uma gincana ampliada, divertida e caricata. Milagrosamente, achamos uma mesa e eis que no meu primeiro mergulho bati o pescoço em um banco de areia. Dois minutos tonto, com a mão na cabeça, ouvindo Losing My Religion e quase perdendo a consciência. Depois do mergulho, não consegui mais virar o pescoço, que até agora não está totalmente curado.
No dia seguinte, domingo, 26, acordei cedo e fui anular o voto novamente. Com licensa, aquele pessoal não está fazendo boca-de-urna?, perguntei aos policiais que estavam na porta da minha seção. Não, a partir de cem metros de distância é permitido, responderam. Mesmo seguindo essa lei grotesca, os militantes do prefeito não estavam nem a cinqüenta metros. Fiz a pergunta para os agentes da lei justamente para certificar que meu voto seria bem anulado. Em casa, pela tarde, conversa e risadas com Vicentão e Augusto, até a vitória do prefeito chorão. Tudo certo no quartel de Abrantes, quem está errado na verdade sou eu e aqueles que costumam achar isso tudo errado.
Na segunda não fiz nada. Já na terça, fui à Base, que também estava devidamente carnavalizada. O Presidente Lula estava pousando naquele exato momento, 11:00horas. Eu e minha querida madre observamos ele descer do avião, a legião de correligionários acompanhar e todos saírem. Minutos depois, esbaforido e segurando um uniforme, o Capitão disse que não poderia me atender justamente por conta da presença do Presidente. Logo depois, numa cena surreal, esperei cinco minutos para conseguir um atestado de presença das mãos de uma tenente. De palavra em palavra ela interrompia a escrita para, na minha frente, decidir sobre uma festa que estava sendo organizada pelos militares de média patente. Militares, uma festa, cinco minutos, um atestado. Inacreditável, mesmo sendo corriqueiro.
Meio-dia, no Hospital Aeroporto, fui a uma ortopedista ver o que se passava com o pescoço. Saí de lá com uma tala no pescoço e o conselho de cair de bomba na água. Almoçamos na esquina de casa, de lá fomos para a loja da Fiat que consertou o carro (que minha madre havia batido) e para rodoviária comprar a passagem. Depois, no supermercado, encontrei Alba e Marta, minhas professoras de educação física do primário (!). Elas estavam na realidade do mesmo jeito em que estavam na minha memória. Lembrei dos polichinelos e dos apoios às sete e meia da manhã. No fim da noite, eu, Augusto e meu irmão sentamos na esquina da Rubem Berta para comer acarajé, tomar chope e jogar conversa e risadas ao vento. Uma hora depois foi o tempo de arrumar o que restava da mala e cair na estrada de volta, dessa vez sem cabo eleitoral ouvindo debate.
Volta e ponderações
Me permiti faltar a aula do prof. Anaelson na quarta-feira, 29, assim como me permito abrir um parêntese agora... ...Têm sido bastante curioso e, vez ou outra, angustiante perceber o declínio da minha crença na universidade como algo instigante. Não esta universidade a qual estou vinculado mesmo porque, desta não carrego maiores crenças desde o primeiro dia de aula -, mas a Universidade de maneira geral. Alguns fatores foram decisivos para este declínio de confiança, o qual eu ainda, dentro dos esforços interiores, tento salvar. O fato do estágio ter-se mostrado um ambiente levemente mais dinâmico, o escasso tempo que tenho tido para ter leituras mais aprofundadas, a omissão por parte do professor Palacios em uma investida feita e, de maneira geral, o fim de festa do curso e, possivelmente, da vida por aqui.
Nessa situação, de vez em quando me pego em dúvidas sobre qual o meu perfil, se devo focar na prática ou na teoria, qual o caminho a ser seguido preferencialmente. Por enquanto, tiro algumas conclusões. A primeira é que, dentro desse grande campo de possibilidade em que estou inserido, estou fazendo algo que me deixa satisfeito muitas vezes e quando não me deixa, percebo logo que não é por conta da atividade, mas do ambiente. Isso é muito reconfortante, porque me dá a idéia de que, se seguir em frente em um ambiente mais adequado, estarei quase ou totalmente satisfeito (embora saiba que a satisfação plena é o fim da linha evolutiva em muitos casos).
A segunda é com relação a falta de crença na Academia como algo que motive e inove nossa percepção de tudo ou que, antes de tudo, dê um sentido firme aos planos e às atividades. Muito dessa crença, que me fazia ganhar horas na biblioteca, se foi por conta de eu não ver, a curto prazo, chances de ser de fato motivado pela universidade. Mas mesmo assim, acredito que logo que me vincular a outra instituição que leve à risca (ou pelo menos tente) os fundamentos do que é uma Universidade essa crença voltará com toda a força. A pergunta que fica é quando e como isso vai acontecer. O lado bom é que o meio prático e técnico, mesmo prejudicado pelo ambiente, me permite ter uma visão mais generalizada de muito e não especifica de pouco (o que também é interessante). Sem o rigor de leituras ou compromissos específicos, posso me interessar sobre economia, política, literatura, música e tudo que aquilo que não tenha relação alguma entre si ou profundidade determinada.
Essas ponderações todas talvez sejam o reflexo de que tenha ficado uma mentalidade um pouco mais funcional esse ano. Isso, por sua vez, é conseqüência de todos os fatos que tem acontecido, das constatações do que está errado e do que está certo dentro das possibilidades permitidas pela, vá lá, conjuntura.
Viagens e reportagens
Isto posto, na quinta-feira, 30, depois da TV fui para o mini-curso sobre Novos Gêneros em Jornalismo Online, com a professora Thaisa Mendonça. Valeu pelos nomes dos gêneros que emergiram de dez anos pra cá, os modelos de notícia, entrevista e por aí vai. No dia seguinte era reportagem pela manhã e, depois que vi o quadro e lembrei dos planos, pela tarde também. Na primeira sobre o mercado moveleiro da cidade fui em marcenarias (em uma delas conversei com o presidente da Associação dos Moveleiros da cidade), no Sebrae, na Agência de Desenvolvimento, Trabalho e Renda e no Banco do Nordeste, querendo saber das potencialidades e das dificuldades do setor. Para a matéria sobre as cooperativas e economia solidária fui na Coopmac, Crediuesb e ainda peguei a estrada com Rony e um funcionário da Coopasub para ir em uma casa de farinha da cooperativa, no povoado de Dantelandia. Lá, dois fornos grandes esquentavam a farinha de mandioca e sacas e mais sacas eram estocadas em um quarto ao lado. Na volta, ainda deu tempo de falar com o presidente da Coopasub.
Aos sábados o ambiente de trabalho parece um mosteiro nas montanhas, tamanha a paz. No dia 01, editei a matéria dos moveleiros novamente com Alex, um cara gente-finíssima. No domingo, assisti o fim da Fórmula 1 com Léo. Gritamos é campeão, como todos que assistiram o final mais emocionante da história. Na segunda a prova da disciplina do professor Francis foi adiada, mas o trabalho não. Organizei o email que a Ong Cipó mandou e enviei para a equipe. Pela tarde fui ao Centro comprar mídias para as empreitadas de edição dos sábados e um cinto para as calças que não paravam de cair.
Foi dia de reportagem novamente na terça-feira, 04. Numa matéria sobre vendas de computadores e fechamento de lan houses, visitei essas e a Insinuante. Na faculdade ainda deu tempo de fazer uma sobre um Seminário de Complexidade. Antes de tudo isso recebi um email de Seu Jorge, informando sobre uma seleção para o Grande Prêmio, o maior site sobre automobilismo do Brasil. Quarta-feira era o último dia para o currículo e um texto entitulado A crise financeira e eu. Formulei o currículo e o texto pela manhã e ao meio-dia mandei. Bom, pelo menos não tive que gastar nada, pensei.
No dia seguinte a equipe do site me parabenizou por ter passado na primeira fase. Repassei a mensagem para os responsáveis pelo dinheiro, em Salvador. Pela tarde, fui fazer reportagens sobre o aniversário de 187 anos de Vitória da Conquista. Falei com uma historiadora, com uma simpática museóloga chamada Marisa Correia na Casa Henriqueta Prates e com o maestro João Omar, que tocou o hino no violão. Depois, pegamos imagens do pôr-do-sol. Pela noite, estudei para as provas do dia seguinte, na sala de estudos, com o tradicional tampão de ouvido.
No começo da manhã da sexta-feira, 07, fiz a prova da disciplina Oficina de Gestão e Planejamento em Comunicação que havia sido adiada. Um arremedo do livro Assessoria de Imprensa, de Elisa Kopplin. Às 09:00 entreguei a prova para o professor Francis e fui para a Televisão. Terminei as atividades por lá às 13:00 e fui para a biblioteca tentar guardar os últimos códigos para a prova seguinte. Às 15:00 fui fazer a prova, terminando às 16:30. Mentalmente cansado, fui esgotar os tecidos musculares na academia da faculdade. Depois de tudo, em casa, finalmente decidi que não iria enfrentar a aventura de ir para São Paulo de ônibus para fazer a segunda fase da seleção. Pesei tudo e dormi como um pedregulho.
Animo novo e olhar no horizonte, corri pela ciclovia recém-construída, pela primeira vez. Sem o novo disco do Rise Against nos ouvidos fica meio monótono, mas mesmo assim valeu à pena. Pela noite, tentei espairecer no bar América, com Léo, um conhecido de Agronomia chamado Diego e a grande figura simpática que é Isaulito. No meio da conversa, prometemos conhecer sua terra, Palmas de Monte Alto, onde ele é mais conhecido como Neto. Promessas de bar. No dia seguinte nos reencontramos, mas dessa vez fomos para um pagode em um lava-jato, no meio da av. Olívia Flores. No preciso momento em que estava engrenando uma promissora conversa com uma morena, ouço do palco algo como é galera, infelizmente é a lei do silêncio. Dela ouvi um tenho que ir e no fim quem ficou em silêncio fui eu. Rapaz, você tinha que ver como ela tava respondendo empolgada, me disse Léo, que foi para um lado enquanto eu ia para casa. Tinha que trabalhar na manhã seguinte.
A minha primeira aula prática de direção de automóvel foi com um cara chamado Val, esse ano, em um terreno baldio. Engrenava um gol que, pelo que senti, deve ter sofrido na mão de muita gente. Na segunda-feira, 10, estava no mesmo lugar para fazer uma matéria sobre a mudança de área do Feirão de Automóveis. O terreno baldio deu lugar a um estacionamento grande, organizado, onde os vendedores de carros usados fazem seus negócios e suas negociatas. Na terça-feira, depois do estágio e da reunião, organizei apressadamente o pôster para o XI Conpex e no fim da tarde entreguei na gráfica Printing Conquista, a cargo de um jovem chamado Joel.
No dia seguinte acordei cedo para mais uma batalha. No Centro acompanhei a impressão e peguei o pôster que acabou ficando sem as referências bibliográficas. O dono da gráfica disse que no Ceasa ficavam algumas vans que iam para Itambé e Itapetinga, mas lá fiquei sabendo que era melhor ir para a rodoviária. Peguei o ônibus das 11:30 e, seguindo o conselho de Brunão, no começo da viagem comprei a Pamonha do Marçal que, na verdade, não tinha nada demais. Eis que desci novamente a temida Serra do Marçal, agora asfaltada e sinalizada. Uns trinta quilômetros após a descida, vi uma cena incrivelmente linda na estrada. Um vasto campo coberto de bois, com um enorme lago no meio e uma montanha atrás. Tudo isso visto de cima. Uma pena não ter máquina fotográfica, valia demais a foto.
O ônibus parou no trevo, onde desci e fui caminhando pela estrada até chega ao campus. Colei os pôsteres com a ajuda de um jovem rapaz que trabalha na biblioteca. Se Deus quiser vou fazer direito o ano que vêm lá, disse ele, quando soube onde eu estudava. Sem almoçar, cheguei 13:30 e os apetrechos do almoço tinham acabado de ser retirados. Na cantina, tomei um iogurte D+ de cajá (o melhor iogurte que já tomei), comi dois pãezinhos de pizza com um refrigerante. Dá pra segurar, pensei. Depois encontrei Gracy, minha colega de estágio que também apresentaria seu trabalho. Ainda bem que você chegou agora. Estou aqui desde de manhã sem nada pra fazer, ela disse. Aproveitei a presença do professor Marcus para fechar minha orientação com ele. Tiramos fotos, explicamos o pôster e pegamos o ônibus de volta, depois de esperar meia hora na estrada. Cheguei esgotado em casa e dormi como um pedregulho de novo.
Ontem pela manhã entreguei a graxa Food Lub Fin Grease (seus problemas acabaram) para Dimas, um contato do meu pai por aqui. No estágio fechei pautas. Ontem, também pela manhã me despedi de Brunão, que só volta de Itabuna daqui a precisos dez dias. Hoje pela manhã fechei mais pautas e mandei um emocionado email para Augusto, onde contava um pouco da angústia que é suportar o meio. Daqui a pouco devo tomar duas cervejas com Léo na barraca de Cau, um sujeito alto astral.
Ademais, tenho uma leve impressão de que esta postagem ficou demasiada longa. 17.444 caracteres.
enviada por Keyser Soze
16/10/2008 08:54
Minhas vistas não enxergam o passar dessa semana, como havia previsto. Segunda-feira, 13, iniciei a labuta na edição das matérias concorrentes: operação 15 minutos e divulgação da gratuidade na passagem para idosos. Pouco antes, houve uma reunião com os novos gestores da Tv. Acredito que as atividades vão ficar um pouco mais coordenadas. Algo positivo, dentro dos limites da barbaridade. A reunião da terça foi rica em pautas, algumas delas pobres. Pela noite, o chuveiro ficava quente e frio. Fui dormir depois de uma longa insônia, pensando se o prazo para mandar os cds com as matérias era ou não (em termos de Bahia) suficiente.
Ontem, depois de, felizmente, perder o pior da tragicômica aula do professor (sem programa de aulas) Anaelson, continuei a editar, considerando e respeitando a lógica da preguiça baiana da rapazeada da técnica. Normal, estando no meio. Ontem também, o chuveiro queimou finalmente. Nesta manhã de quinta, antes de recomeçar a edição, achei por bem descrever esses dias tensos. Nesse semestre me equilibro em necessidades urgentes: duas matérias no curso (uma prática e outra para o ante-projeto), matéria no curso de Letras, iniciação científica e suas burocracias, estágio, edição das matérias e toda a papelada, atividades físicas e atividades domésticas.
É perceptível por essas linhas que não tem sido fácil o equilíbrio de tudo isso, mas vamos seguindo. Daqui a dois meses boa parte dos compromissos já não fará mais parte da agenda. Velho Lilá, avô de Augusto, faleceu anteontem. Paz para ele, onde esteja. Força para nós, que aqui estamos.
enviada por Keyser Soze
12/10/2008 23:52
Já estamos em outubro de 2008. Não paro de pensar naquilo que abracei com força e naquilo que deixei passar. Mais ainda, não deixo de pensar nos rumos que as coisas tomarão nesse futuro próximo. Espero que os planos maltrapilhos dêem certo. Alguns, por agora, demonstram que não darão, outros apontam que sim e é nessa mureta que me equilibro agora.
Cheguei segunda-feira, dia 22, e não fui para a aula. O peso da noite mal dormida no ônibus falou mais alto dessa vez. Terça foi dia de repórter na universidade (no Janela Indiscreta e no colegiado do meu curso) e em mais outros lugares que minha memória em tempos de cólera não alcança. Quarta, além de testar os nervos em uma sala adversa, foi também dia de reportagem em uma loja de skate.
Sexta, 26, novamente na reportagem pela manhã, fui ao bairro Vila América, em uma matéria encampada por mim, sobre o programa de paternidade responsável do Ministério Público do Estado. Erradamente, pensava que se enquadrava nas disposições do prêmio o qual ambiciono. De lá para a Caixa Econômica numa sonora com o gerente geral, para a matéria que, essa sim, se enquadra nas tais disposições. Para finalizar fizemos algumas imagens e fotos no estádio Lomanto Jr. Pela tarde corri atrás do prejuízo na aula em Letras, sabendo dos trabalhos gravados em mp3, escritos e da prova que tinha que fazer para a semana seguinte.
Corrida Rústica da Uesb 2008
No chuvoso sábado, 27, olhei para o céu e pensei, a corrida vai ser rústica mesmo. Às 15:00 horas já estava à posto, me aquecendo e trocando idéia com alguns senhores que já correram a São Silvestre algumas vezes, maratona do Rio, Volta da Pampulha. Eu, corredor de fim-de-semana (e olhe lá), ali, ouvindo e imaginando o meu fiasco. Em uma aquecida mais empolgada meu mp4 caiu no chão e não quis mais ligar. Sem o apoio dos gritos de Matt Skiba no meu ouvido ficaria mais complicado ainda.
Chuva fina na cara e todos engatilhados. Mulheres pouco mais a frente. Soa a corneta e todos dispararam. Começava os oito quilômetros da Corrida Rústica da Uesb 2008. Em 10 segundos eu já estava entre os últimos e mal via os primeiros. É, ninguém me avisou que não era recomendável para amadores, pensava. 20 segundos depois, quando já não podia ver os primeiros colocados, sou ultrapassado por um cara que grita olha o cadarço!. Paro para amarrar, me resignando com o último lugar. Desce ladeira, sobe ladeira, sai de poça, pisa em poça. Nesse molejo fui indo, apegado no confortável pensamento de que o importante é competir. Um instante depois já ouvia o barulho da moto, que acompanha o último colocado, logo atrás de mim.
Tentava entrar no transe da corrida, mas não dava, era muita poça, lama e o barulho da moto. Nem com Matt Skiba gritando adiantaria. De repente, a moto buzina e quando olho para trás vejo um ônibus se aproximando com sua bocarra e seu fragor. O ônibus passou e me despejou fagulhas de lama que, pela minha camisa branca, me deixou parecido com um sorvete de flocos. Isso que é rústico, pensava, me perguntando onde eu fui me meter. Bem antes de fazer o retorno, os primeiros colocados já passavam voando por mim, fagueiros, em direção à vitória.
De minha parte, enxergava um senhor de camisa verde há uns 15 metros. Na hora, pensei que poderia ter como meta na corrida ultrapassá-lo. No retorno, entreguei a senha e peguei um copo dágua. O senhor continuava à mesma distância e na mesma passada que eu. Mas eu estava no meu limite. Se desse um passo mais longo, era capaz de dar pane no meu maquinário. Mesmo assim, não tirava o senhor de verde da mira. Pisava com a direita, ele também, com a esquerda, ele também. Esse cara não cansa?, me perguntava.
Chegando na última reta, a qual dava para uma grande descida e depois uma grande subida, pensei, é agora. Havia me aproximado um pouco e já me encontrava há uns cinco metros do senhor por um bom tempo, sem conseguir ultrapassar. Quando avistei a descida ao longe, investi. Passos maiores, insuportavelmente desgastantes. Pulmão a toda potência, é agora. Ultrapassei e mantive os mesmos cinco metros. A descida em passos ainda maiores e a subida em um esforço sem igual.
No cérebro outra batalha se dava. Um pensamento gritava ah, não dá pra subir, vai andando, vai andando porra e outro exclamava, andando? Agora que ultrapassei o coroa, porra nenhuma, tem que correr, ahhh!. Correr é um esporte, correr competindo é outro, completamente diferente. Justamente por conta da guerra psicológica. Sem competir é algo como, pô, estou cansado, mas dá pra ir mais um pouco até ali, naquele poste. Competindo é, estou morto de cansaço, mas não posso parar de jeito nenhum porque o coroa está com o bafo aqui no cangote. Corre porra, ahhh!. O duelo é com os outros, mas é mais cruel consigo mesmo.
Estava crente que a corrida acabaria na curva para o portão principal da faculdade, de onde largamos. Mas quando fiz a curva, percebi que tinha mais corrida. Minha mente não contava com isso, meu corpo também não. Mas o corpo é subordinado à mente. Primeiro eu tive que me conciliar no cérebro. E aí, dá?, me perguntava. Rapaz, não pare. Mas com essa a gente não contava, né?, me respondia. Pois é. Ih, olha o coroa lá, vamos nessa!. Já estava muito além das minhas possibilidades, mas o poder da mente me fazia relevar qualquer desgaste, por maior que fosse. Desci a última ladeira, passei pelo módulo de Medicina, subi a última ladeira e, finalmente, terminei a corrida. Estendi a mão e comemorei, penúltimo!.
Recebi água, um kit com banana, maçã, barra de cereal, camisa, boné e medalha. Estava tonto, sem saber pra onde ir, minha perna tremia. Tirei fotos com o senhor de verde, o último colocado. Me disseram que ele era pastor. Que Deus me perdoe, então. Esperei a premiação conversando com alguns competidores. Peguei o ônibus pra casa e não fiz mais nada o dia inteiro.
No domingo, 28, depois de ver uma desastrosa corrida de Felipe Massa, me perdi pela Olívia Flores e me dei bem duas vezes, pela primeira vez. No dia seguinte era só bocejo. Terça, depois de eu tentar pela milésima vez tentar me dispensar de uma matéria na SGC e antes de entregar a freqüência na Geac, Ripe, diretor de programação que mais parece Sloth, me disse que eu não parecia muito motivado. Meus botões ficaram entre o riso e o espanto.
Na quarta-feira, 01, com tudo mais azul fomos fazer uma matéria sobre o calendário da campanha contra a febre aftosa na fazenda Pontal, com um simpático senhor criador de gado guzerá. De lá fomos ao presídio Nilton Gonçalves e para o Fórum, para uma matéria sobre a construção do mini-presídio e de lá para a praça da Escola Normal, entrevistar o presidente da torcida Criptonita, do time da cidade. Na sexta, 03, tirava as últimas fotos com a câmera. Filhotes de cachorros, pôr-do-sol, Fábio, Kalled e Daiane. Pela tarde fiz a prova de Língua Inglesa III até bem para quem não estudou. Arrumei minhas malas e fui para mais uma viagem.
Ida
Antes de descer do ônibus encontro Léozinho (aquele que bebe conhaque sorrindo) com a cara amassada pela viagem, mas não só por isso. Era pra eu ter descido em Feira, disse indignado. Desceu do ônibus e frente-a-frente com o motorista disse: Passou por Feira voando, heim?. No mesmo sábado corri na orla e arranjei fôlego para sair com Augusto. Fomos ao Tonnys e de lá para o Rio Vermelho, novamente. Mais uma vez encontrei os colegas do rock que dessa vez, surpreendentemente, não fizeram nenhuma palhaçada. Depois de sermos solapados com barbaridades por todos os lados, fomos para casa, tomar as últimas.
No dia seguinte foi domingo de eleição. Anulei meu voto às 10:00. Poderia considerar o pedido do delegado afastado da Polícia Federal, Protógenes Queiroz, o homem que colocou as mãos no colarinho branco de Dantas, Nahas e et al. Ele disse para exercermos nosso direito e acreditar no voto como instrumento democrático. Pensei em votar por ter vindo dele o pedido. No entanto, dessa vez, falou mais alto o pensamento de que tudo, aqui, é o que pode ser. A tese para a anulação, resumidamente foi: não havendo uma profunda reforma política, o que é de fato nulo é acreditar em voto. Além disso, depois da Satiagraha, minha confiança da mudança das estruturas minguou, quase se extinguindo. A lógica do lobby se escancarou às minhas vistas dessa vez e isso não ficaria por isso mesmo.
Segunda, 06, fui a Base para quase nada e marquei a próxima consulta para o segundo turno das eleições, para exercer meu direito de anular novamente. Pela tarde, com minha madre, comprei a passagem na rodoviária e duas calças no Iguatemi. Antes de pegar a estrada, meu tio e Augusto apareceram em casa. Com este, lancei a próxima chapa para a prefeitura de Salvador: Léo Kret e Lacraia. Fui.
Volta
Uma hora de sono e coloquei a camisa de botão na mochila novamente. Dessa vez a reportagem era na rodoviária, sobre a decisão da Justiça em acatar a ação do Ministério Público Federal de determinar a divulgação da gratuidade nas passagens para idosos em um cartaz padrão da Agência Nacional de Transportes Terrestres. Parece complicado, mas na realidade é mais ou menos simples. Sonora com o agente da ANTT, com um senhor passageiro, com a velhinha e suposta diretora da Novo Horizonte e com a procuradora federal Melina Flores. Pela tarde, almocei às 14:00 e esgotado, dormi até às 18:00. Pela noite, na estréia da Mostra de Cinema Conquista, assisti ao empolgante Os Desafinados.
Quarta, 08, depois de recarregar os passes no Centro, fiquei na reportagem de novo, entrevistando uma psicóloga sobre a relação das crianças com a sexualidade, depois professores na Semana de Letras, no começo da noite com Joel Pizzini, o responsável pela restauração de filmes e extras para a Coleção Glauber Rocha. À noite, um bem feito documentário sobre Waly Salomão na Mostra.
Quinta-feira pela noite começou a interessante oficina da Mostra em Produção de Conteúdo para TVs Universitárias com o professor e diretor de TV, Pedro Ortiz. Sexta pela manhã mais oficina, pela tarde reportagem no setor de informática sobre os riscos da tecnologia Bluetooth e imagens no Centro e no Centro de Cultura. Na Mostra, uma breve conversa com Gil Brito, sobre possíveis projetos juntos, depois de tentar assistir ao bizarro documentário Santiago.
Ontem o dia inteiro foi dedicado à oficina. Hoje, Léo e eu fomos à comemoração do Dia das Crianças no Boa Vista, bairro de Arnaldo. Ele pagou cerveja, mostrou a casa, as crianças e os planos. Saímos de lá quase 17:00. Cheguei na reunião do grupo de um trabalho da faculdade com três horas de atraso, mas alegre. Amanhã é segunda-feira e a semana vai ser corrida.
enviada por Keyser Soze
21/09/2008 19:57
Os fétidos ares da barbaridade
Tentei dar forma às idéias iniciais do trabalho de conclusão nas manhãs da quarta e da quinta, 17 e 18. Ajustando o foco, tentando pensar novas possibilidades e caminhos. Saí da casa às 20:20 e peguei o ônibus para a rodoviária a tempo. Cheguei em Salvador dessa vez com a missão de tirar o aparelho da arcada inferior e pegar meu documento de viagem. Chegamos ao dentista às 11:00 e mais uma vez tive que suportar o cidadão mais insuportável que minhas vistas já focaram. Ele mora fora, aí é complicado, despistava. De minha parte, contava os segundos para o fim de mais aquela seção de tortura nas dependências do Esquadrão de Saúde. Mais um molde tirado e mais uma consulta marcada. Quem esperou 7 longos anos, espera mais algumas semanas, pensei.
De lá fomos para o Sac. Uma coroa, com alguns papéis em mãos, inquiria o funcionário da PF em um tom elevado. Quando ela se foi, o previsível comentário do agente: me aparece com uma cópia e quer dizer que é original. Nem passo para a perícia, está na cara que é cópia. Seu Ian, chamou a mulher. Entrei e vi as pilhas e pilhas de documentos alojados em um canto. Bom, é Polícia Federal, mas é na Bahia, pensei. Tudo entregue e me diz o funcionário, pronto, boa viagem. Obrigado e tenha uma boa tarde, disse, mas que os astros te ouçam, meu amigo, pensei.
Na noite, fui com Guto em uma boate na Pituba chamada Hit. Já sabia de cor, salteado e de trás para frente o que me esperava. Não me decepcionei, afinal, tirando os R$50,00 debitados, era o que esperava. Mas os exemplos escancarados da putrefação da juventude dessa cidade estavam só começando. A noite valeu pela conversa sempre digna, aprazível e instigante com meu amigo. Na saída, compramos algumas cervejas e viemos para cá, repercutir os acontecimentos.
Ontem, sábado cinzento, fomos novamente ao Rio Vermelho comer um acarajé. Conhecemos um francês, estagiário da Embrapa, de férias em Salvador e aprendendo como não se deve ser. Ao seu lado um jovem de algum lugar do sul do país que morava há cinco meses no Capão. Passam duas morenas, sentam-se na mesa ao lado e, automaticamente, os dois se transferem de lugar. Instantes depois, passa Rogério, atualmente um cara que um dia, na ingenuidade que cabe às adolescências, considerei amigo. Me atualiza sobre dois ou três casos que hoje não me interessam tanto, a não ser pela curiosidade. Se despede e depois volta com Zamir e Pedro. Que dançam, gritam e perturbam com a ignóbil intenção de me constranger. A seu modo conseguiram, simplesmente pelo fato de não ter entendido o porque daquela cena bizarra. Minha nossa, a que ponto podem chegar? Será que há um cacho de bananas para esses macacos?, cogitava. Rogério rindo e incentivando. Não há limite, conclui. É um deprimente fim de coleguismo. Deprimente, pensei eu, lembrando da noite anterior, é esse meio, essa juventude podre e acéfala, essa realidade hostil. Errados, concluímos eu, Augusto e meu irmão, estamos nós, que estamos aqui ainda.
Hoje rimos, almoçando uma bela lasanha. Perguntando-nos sobre as razões para a expressão dia de branco, cogitei às gargalhadas. Rapaz, todo mundo enche a cara no fim-de-semana e quando chega na segunda-feira esquece o trabalho que tem, esquece as contas, esquece até que existe. Dá um branco generalizado. Pois é, dessa vez o baixo nível dessa metrópole medieval mexeu com meus brios.
Daqui a uma hora o ônibus parte de volta ao sudoeste. Em Vitória da Conquista há um levíssimo, mas perceptível, ar de cidadania, civismo e, que seja, civilização.
enviada por Keyser Soze
19/09/2008 17:26
Epaminondas, eu?
No final de 2002 eu ouvia uma música gravada por brincadeira pelo Dead Fish durante as seções de gravação do Projeto Peixe Morto. Era um reggae mal feito e mal intitulado de Epaminondas in love. É, afinal, a música ainda existe. Conta a história escrachada e fictícia de um rapaz que viaja a Itaúnas, norte capixaba, e não consegue garantir sua gata por questões financeiras. Você se recusou a andar na minha garupa e curtir um pôr-do-sol nas dunas. Preferiu tomar um whisky que fumar um soltinho, mas agora tudo vai mudar. Pois agora minha banda virou e vou poder comprar um Gol e voltar a Itaúnas no meu carrão. Não vai adiantar dançar, nem piscar, nem rebolar, porque o próximo forró eu não vou dançar com você. Cinco anos depois de ouvir essa música fui a uma festa à fantasia. Férias. Fevereiro ou março desse ano. Fui vestido de militar, uma das únicas fantasias disponíveis aqui em casa. Fim de festa, puxo uma garota para bailar. Conversa inútil vai e vem, saliva útil vai e vem, ela me diz que eu preciso conhecer o forró de Itaunas. Deu um estalo na memória. Onde?, sedento pela confirmação, perguntei. É um lugar que rola forró pé-de-serra mesmo, não são essas coisas que estão tocando aqui, Falamansa, essas coisas. É pé-de-serra mesmo, descrevia ela. Ah, já ouvi falar, disse eu. Mentira, disse ela. Fica no Espírito Santo, arrematei. Porra..., se exasperou ela. No dia seguinte eu pensava comigo, É... Pelo menos eu não precisei comprar um Gol.
enviada por Keyser Soze
17/09/2008 09:54
A Esquina da Vida
Com os cartazes do lançamento do livro de Cury na mochila e em direção à Fainor, uma faculdade privada, saí para colar, não para colorir. Depois, no colégio Opção, que fica ao lado. Ah, quando me falaram que era sobre livro, eu deixei entrar logo, me disse a diretora do colégio, entusiasmada. Desci para a FTC, no sol de onze horas da segunda-feira, 08. Cartazes colados e chamando a atenção de um ou outro. Eu, organizando meu primeiro evento, pensava, como será?. Pela tarde, depois de almoçar em casa, fui ao teatro de absurdos do estágio, duas dezenas de passos depois estava na academia, olhando no espelho os últimos momentos da minha metálica dentição. Em casa, arrumei a mala e fui para a rodoviária.
Já na terça-feira, 09, descadeirado pelo sono inconstante da viagem, tomei um café em casa e fui para a Ufba. Subi e desci, procurando a sala do professor, até finalmente entrar. Marcos Palacios se ocupava em frente ao computador. Me cumprimentou e, depois de alguns instantes, falou bom, o que você me traz?. Depois de explicar minhas desorientadas intenções, ouvi atentamente que o jornalismo cívico foi um fenômeno histórico localizado, que seria mais proveitoso tratar (ou traçar um paralelo) com o jornalismo cidadão e por aí foi. Engolindo em seco, piscava os olhos e captava a mensagem. Para minha satisfação, traçamos um esboço de calendário e nos despedimos.
Demos, eu e minha madre, um tempo em casa e de lá fomos para a Base. Pela primeira vez, deitei naquela cadeira com a alegria de quem está dando vários pontos parágrafos na vida. Com essa alegria ouvia os estalos dos brackets se descolando definitivamente dos dentes. Durou cerca de meia-hora. Quatro anos e meio de consultas sufocantes para meia-hora de consulta libertadora. Mas agora, temos o resto dos dias. Almoçamos na Delicatessen Kelmer, em Lauro de Freitas, ao som de uma propaganda política nas alturas que dizia, ininterruptamente, é treze, é treze, é treze. Enquanto eu tentava achar treze adjetivos para descrever como é bom almoçar sem aparelho.
Pela tarde, mais cadeira. Duas dentistas novas no Esquadrão de Saúde, conversavam enquanto eu me posicionava. Uma delas, a carioca, me atenderia. A outra, paulista, atenderia outrem. Percebi pelas nubladas entrelinhas da conversa delas que o assunto era-me extremamente familiar: a idiossincrasia baiana. Tão familiar que me senti no direito de interpelar as tenentes. Ah, mas isso aí é a Bahia, disse eu, esperando elas compartilharem as angústias comigo. A paulista, mais revoltada, disse de pronto, Vem cá, você é baiano?, diante da minha resposta e do meu comentário de que estando aqui, ou se acostuma ou morre, ela sentenciou, Ah, então eu vou morrer. Enquanto a Ten. Patrícia contava sua parte: Ah não, cara, eu estou pedindo transferência, não tem como. Dali em diante fiquei quieto, esperando as três horas de restauração acabarem. No Unibanco da Manoel Dias, liguei para Cury. É poupança ou é corrente?, perguntei. Depositei o dinheiro da passagem em sua conta-corrente. Em casa, depois da jornada descrita, me coube rir com Augusto e meu irmão.
Quarta-feira, dia 10, novamente na Base. Dessa vez foi para tirar o molde final para a feitura do aparelho de contenção. Pela tarde, fui ao Sac. Engraçado. Mesmo a seção do Departamento da Polícia Federal, na Bahia, é mangueada. Documentos entregues, digitais colhidas, foto tirada e prazo dado. Durante os procedimentos, lembrei da quantidade de documentos e medidas necessárias que me fizeram estar ali, naquele momento. Depois, na rodoviária, comprei a passagem para a mesma noite e voltei.
Um breve cochilo e parti para a reportagem. Imagens dos Correios, para uma nota sobre uma determinada campanha e, como se caísse dos céus, uma operação conjunta do Procon e do... Ministério Público. Sabe aquele às que você precisa para fazer o full hand que liquida a partida? Pois é, pareceu e só fui me tocar um ou dois dias depois. Acompanhamos a vistoria até o meio-dia, eu e o camarada Vilson, outro que vale a pena. Pela tarde fechei os offs cirúrgicamente e pela noite, antes de treinar, colei o release do livro de Cury pela faculdade. Em casa, arrumei o beliche e deixei um recado: Cury, a porta está aberta, tire um cochilo no beliche. Às 7hrs te acordo.
Ele chegou atordoado por ter perdido um travesseiro que lhe renderia um belo sermão. Tomamos café, fomos para a faculdade gravar um stand-up, depois para a rádio 96 para uma entrevista ao vivo e para casa almoçar. Entre isso tudo, muitas histórias. Assim como ele soube, em um dado momento, toda a história da Camisa de Vênus sem ser contada pelo seu vocalista, eu soube, a partir dele, toda a história da Formidável Família Musical sem ser contada pelo seu vocalista. Depois de duas horas improdutivas no estágio pela falta de internet, voltei para trocar mais idéias na varanda. Pôr-do-sol, Cury dando seu tapa na madura e eu ouvindo.
Chegamos na livraria 18:30 e estava vazio. Só naquela hora que fui saber que ocorria um evento também gratuito na praça Barão do Rio Branco, com jazz, blues e não sei mais o que. É, fudeu, pensei. Durante todo o tempo, até a meia-noite, apenas as mesas foram ocupadas. Fiquei bem angustiado também por pensar que poderia ter começado a divulgar antes, mesmo não tendo confirmado nada. Eduardo Ribeiro deu uma pausa e eu assumi as cordas para tocar um punhado de músicas de Chuck Ragan e mais outras. Cury vendeu dois livros. O meu, quando ainda estávamos em casa, e o de uma menina. É possível que venda mais, porque um pessoal do rock que não ficou sabendo a tempo (não sei porque) pode comprar os que estão na livraria ainda. Fico de cá, torcendo. Voltamos a pé, eu, pensando em todas as pessoas que não foram, Léo bêbado e Cury meio sério. Lanchamos em um trailer na praça da Normal. Caímos no sono.
No dia seguinte, tomamos café assistindo o treino da Fórmula 1, que está a cada dia melhor. Enquanto Cury contava as histórias de Sena, Massa e Hamilton se digladiavam na pista. Fim de treino e saímos para o Centro. Antes de chegar no ponto, uma carreata de religiosos tomava conta da Olívia Flores aos apitos. Tem que botar todo mundo num caminhão e levar pra um hospício, dizia Cury, enquanto uma mulher gargalhava atrás de nós. Vai maluco, falava Cury, quando alguém apitava na nossa orelha. Pegamos as caixas com os livros na livraria e fomos para o terminal. Porra man, falta muito?, perguntou Cury, antes da rodinha da sua mala quebrar. Nos despedimos no terminal e depois, por engano, acabei pegando um ônibus que deu uma volta na cidade. Pela tarde, mais um treino para a corrida rústica da faculdade para fechar uma semana corrida.
No domingo, engrossei as referências para o projeto final e toquei na porta da vizinha, me apresentando e dizendo que pode contar para qualquer coisa. Segunda, 15, foi meu primeiro dia de aula, mesmo as aulas tendo se iniciado há quase um mês. Mais do mesmo. O fardo, o mofo e minhas costas sentindo as agonias do atraso que me acompanha há precisos três anos. A matéria do professor Francis promete algo além do mesmo, afinal, ele trabalha com o que está lecionando. Mas, assim mesmo, o meio é cruel. Se o meio é assim, que será o fim?, me pergunto há tempos. Ontem, terça-feira, depois do trabalho e da reunião, finalmente, peguei a minha carteira nacional de habilitação. Detran, adeus!, pensei eu ao sair pela porta olhando a carteira. Ainda no Centro, comprei minha passagem para quinta-feira. À noite, reportagem na Semana do Administrador e em uma palestra sobre análise de discurso, corpo e cinema.
Remoção do aparelho, pedido de orientação de monografia, passaporte, reportagem importante, lançamento do livro de um camarada, carteira de habilitação... Sabe a esquina da vida? Foi essa semana.
enviada por Keyser Soze
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